O COICE DO BURRO
CUIDADO COM OS ELOGIOS
Um mascateiro percorria vilas, aldeias e povoados vendendo ferramentas, produtos exóticos, chás milagrosos e outras curiosidades.
Dentre os seus itens, o que ele mais gostava de exaltar era um produto preventivo para coice de burro, pois, imediatamente, despertava a curiosidade das pessoas.
– Você está cansado de levar coice de burro? Eu tenho a solução! Tratava-se apenas de um pacotinho de pano bem fechado, e ele dizia aos compradores: – Não abra a embalagem agora. Para funcionar, você só pode abrir perto do burro que vive coiceando você.
Muitos compraram o tal produto milagroso.
Chegando em casa, rapidamente iam até o burro e abriam com muita curiosidade o embrulho, porém, para sua surpresa e decepção, encontravam dentro dele apenas três metros de barbante e a seguinte instrução: “Amarre uma ponta deste barbante perto de onde o burro está, com cuidado para não levar um coice.
Estique o barbante e segure a outra ponta. Mantendo sempre esta distância, o burro nunca mais vai conseguir dar um coice em você.”
Ludibriados e raivosos, foram atrás do vendedor para pegar o dinheiro de volta, mas o espertalhão já havia sumido da praça.
Moral da História:
A grande lição dessa história é que maturidade não é aprender a suportar todos os “coices” da vida… é aprender a manter distância daquilo que continuamente nos machuca. O barbante do mascateiro parecia uma fraude, mas escondia uma verdade profunda: muitas dores poderiam ser evitadas se algumas pessoas aprendessem a estabelecer limites.
Há gente sofrendo porque insiste em permanecer perto demais de: relacionamentos abusivos, amizades destrutivas, ambientes tóxicos, discussões inúteis, pessoas agressivas, situações que já demonstraram repetidamente seu perigo.
O problema não é apenas o “burro” dar coice. A questão é: por que continuar ao alcance dele? A vida ensina que nem tudo pode ser transformado imediatamente.
Existem pessoas que não querem mudar. Existem comportamentos que continuarão ferindo. Existem ambientes que continuarão tóxicos. Nesses casos, sabedoria não é confrontar o coice; é discernir a distância segura. Muitos acreditam que maturidade espiritual é suportar tudo calado. Mas até Jesus, em alguns momentos, se retirava de ambientes hostis.
Paulo se afastou de pessoas perigosas. Provérbios constantemente ensina prudência. Há sofrimentos que vêm da perseguição do evangelho.
Mas há sofrimentos que vêm da falta de discernimento. Algumas pessoas apanham emocionalmente todos os dias porque nunca aprenderam a colocar limites saudáveis. O “barbante” da história simboliza prudência. Simboliza discernimento. Simboliza a capacidade de dizer:
“Até aqui.”
“Desse jeito não.”
“Não vou mais me expor desnecessariamente.”
Nem todo conflito deve ser enfrentado de perto.
Nem toda provocação merece resposta.
Nem toda convivência precisa continuar íntima.
A sabedoria bíblica não consiste apenas em ter um bom coração, mas também em saber onde pisar. Por isso, a moral dessa história poderia ser resumida assim:
“Há coices que não se evitam pela força, mas pela distância. Quem não aprende prudência acaba confundindo insistência com sabedoria.” Ou ainda: “Pessoas sábias aprendem que manter certa distância de alguns ‘burros’ da vida não é covardia — é proteção emocional, espiritual e até física.”